Há pouco mais de um mês, em 19 de outubro, um asteroide peculiar foi detectado pelo telescópio Pan-STARRS1, no Havaí: 1I/2017 U1, apelidado de ‘Oumuamua. Ele tem a aparência alongada de um cigarro, cor avermelhada e 400 metros de comprimento. Agora, um pesquisador do Observatório de Paris confirmou o que a comunidade científica já suspeitava sobre esse objeto exótico: ele não é do Sistema Solar. Uma prévia do artigo científico que relata os cálculos já está disponível no servidor arXiv.org.

Não é a primeira vez que recebemos um visitante de outro canto da Via Láctea – de fato, o fenômeno é comum. Astrônomos da Universidade da Califórnia (UCLA) calculam que cerca de 10 mil asteroides errantes, que se formaram no entorno de outras estrelas, estejam passando nas redondezas do Sol neste exato momento.

Esses asteroides não vieram para ficar: são mochileiros galáticos, e viajam em velocidades tão altas que não podem ser retidos pelo campo gravitacional do Sol. Após atravessar a esfera de influência da nossa estrela – o que leva cerca de uma década –, eles penetram de novo no espaço interestelar, e seguem viagem até alcançar o próxima sistema. Por ano, cerca de mil objetos “turistas” entram no nosso perímetro. Outros mil saem.

O problema é que, até a detecção inédita de 1I/2017 U1, nenhum desses objetos havia sido observado diretamente pelos telescópios terráqueos. Esses asteroides turísticos agem como gringos na nossa vizinhança cósmica: percorrem trajetórias diferentes, mais abertas, que não batem com a de asteroides já familiares. Quando eles aparecem, os especialistas sabem que eles têm algo de exótico – da mesma maneira que você consegue reconhecer um estrangeiro no metrô só de olhar.

O fato de que ‘Oumuamua é o primeiro de seu tipo a aparecer nos nossos radares – mesmo que outros milhares de potenciais candidatos cruzem o céu escondidos o tempo todo – é uma mera questão estatística. “Nós só enxergamos 30% dos asteroides que passam perto da Terra”, explicou à SUPER, em julho deste ano, Lindley Johnson, chefe de defesa planetária da NASA. “Há muita coisa lá fora, mas, felizmente, o espaço é um lugar muito grande também.”

A cor avermelhada de 1I/2017 U1 pode ser sinal de que ele contém moléculas orgânicas (baseadas em carbono), os blocos básicos para construir a vida como a conhecemos. Embora essa não seja a única explicação possível para a cor, sua aparição reforça uma das hipóteses para o surgimento da vida na Terra: que ela tenha chegado de carona em um asteroide alienígena, que caiu por aqui há cerca de 3,7 bilhões de anos.

‘Oumuamua também pode fornecer dados inéditos sobre a formação e a composição de planetas em outros sistemas solares. Asteroides como ele são a chave para compreender o que o resto do universo tem de diferente (ou igual) a nós. Ainda não se sabe qual é a origem de 1I/2017 U1 – nem o motivo de seu formato curioso.

Relevância científica à parte, é claro que a internet não perdoa. Já há quem aposte (baseado na forma cilíndrica exótica do corpo) que o asteroide não contém apenas matéria orgânica, mas alienígenas inteiros. A principal referência é o romance de ficção científica Encontro com Rama, publicado por Arthur C. Clarke em 1973 – em que uma imensa nave em forma de charuto entra no Sistema Solar para dar uma espiada, e acaba interceptada por astronautas humanos.

[SuperInteressante]

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