Pesquisadores da Universidade de Princeton (EUA) e da Universidade de Uppsala (Suécia) acompanharam o desenvolvimento de uma nova espécie de pássaro nas Ilhas Galápagos.

A chegada, há 36 anos, de uma ave estranha a uma ilha remota do arquipélago forneceu evidência genética direta de uma maneira pela qual a especiação ocorre.

O estudo foi publicado na prestigiada revista Science.

A chegada

A observação direta da origem desta nova espécie ocorreu durante o trabalho de campo realizado nas últimas quatro décadas por B. Rosemary e Peter Grant, dois cientistas da Universidade de Princeton, na pequena ilha de Daphne Major, em Galápagos.

De acordo com os pesquisadores, o pássaro estranho se acasalou com um membro de outra espécie residente na ilha, dando origem a uma nova espécie hoje composta por aproximadamente 30 indivíduos.

Em 1981, um estudante de pós-graduação notou o pássaro recém-chegado, um tentilhão-das-galápagos (também chamado de tentilhão-de-darwin) macho com um canto incomum, muito maior em tamanho de corpo e bico do que as três espécies de aves residentes na ilha.

Os pesquisadores colheram uma amostra de sangue e liberaram o pássaro. Mais tarde, cientistas da Universidade de Uppsala analisaram o DNA coletado deste indivíduo e de sua prole.

Big Bird

Os pesquisadores descobriram que o macho era da espécie Geospiza conirostris, da ilha Española, que fica a mais de 100 quilômetros ao sudeste do arquipélago.

A distância notável significava que o pássaro, uma vez que chegou à Galápagos, não conseguiu voltar para casa para acasalar com um membro de sua própria espécie e, portanto, escolheu uma companheira entre as três espécies de tentilhões que já estavam em Daphne Major – no caso, uma Geospiz fortis.

Tal acasalamento deu início a uma nova linhagem, seguida pelos cientistas por seis gerações.

Este isolamento reprodutivo é considerado um passo crítico no desenvolvimento de uma nova espécie. Esta, no caso, foi apelidada pelos pesquisadores de “Pássaro Grande” (no original, em inglês, “Big Bird”).

Duas gerações

A prole desses pássaros foi reprodutivamente isolada porque sua canção, usada para atrair companheiros, era incomum e não conseguia atrair fêmeas das espécies residentes de Daphne Major.

Os filhotes também diferiam das espécies residentes em tamanho e forma de bico, o que é uma sugestão importante para a escolha de um parceiro.

Como resultado, a prole se acasalou com membros de sua própria linhagem, fortalecendo o desenvolvimento da nova espécie.

Antes, nós pensávamos que a formação de uma nova espécie levava muito tempo, mas, como os cientistas viram a partir deste estudo, pode acontecer em apenas duas gerações.

Competição por alimento

Todas as 18 espécies de tentilhões no arquipélago são derivadas de uma única espécie ancestral que colonizou Galápagos há cerca de um ou dois milhões de anos.

Os tentilhões se diversificaram em diferentes espécies e as mudanças na forma e tamanho do bico permitiram que utilizassem diferentes fontes de alimento.

Dois requisitos críticos para a especiação ocorrer é hibridação de duas espécies distintas, bem como competição ecológica – isto é, a nova espécie, para sobreviver, tem que ser boa em competir por alimentos e outros recursos com outras espécies.

Esse tem sido o caso da linhagem do Big Bird. “É muito impressionante que, quando comparamos o tamanho e a forma dos bicos do Big Bird com as morfologias do bico das outras três espécies que habitam a Daphne Major, os Big Birds ocupam seu próprio nicho. Assim, a combinação de variantes de genes das duas espécies entrecruzadas em combinação com a seleção natural levou à evolução de uma morfologia de bico competitiva e única”, disse Sangeet Lamichhaney, principal autor do estudo.

Evolução

A definição de espécie tradicionalmente inclui a incapacidade de produzir progênies totalmente férteis de espécies cruzadas, como é o caso do cavalo e do burro, por exemplo.

No entanto, nos últimos anos, ficou claro que algumas espécies estreitamente relacionadas, que normalmente evitam acasalar entre si, podem produzir descendentes que passam genes para as gerações subsequentes.

Um dos aspectos mais marcantes deste estudo é que a hibridação entre duas espécies distintas levou ao desenvolvimento de uma nova linhagem que depois de apenas duas gerações se comporta como qualquer outra espécie de tentilhão na ilha.

Um especialista desavisado que acabasse de chegar à Daphne Major não iria pensar que esta linhagem surgiu apenas recentemente. Isso demonstra claramente o valor dos estudos de campo de longa duração.

É provável que novas linhagens como Big Birds se originaram muitas vezes durante a evolução dos tentilhões em Galápagos. A maioria dessas linhagens desapareceu, mas alguns podem ter levado à evolução das espécies contemporâneas.

[HypeScience]

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